É Diário, Sábado 25 de Junho
Uma semana depois – que é bom darmos tempo ao tempo, para ganhar distância e perspectiva –, vale a pena ver como vai a União Europeia.
2.
Nos dias seguintes à minha última observação sobre o adiamento do Tratado Constitucional, falhou o acordo sobre o orçamento comunitário e as recriminações recíprocas subiram de tom.
Para Chirac e Schröder a culpa era de Blair. Para Blair a culpa era de Chirac e Schröder.
Notáveis tinham sido os países do alargamento, que haviam feito tudo em homenagem ao sonho europeu: até tinham prescindido de parte dos seus financiamentos.
Em suma, ao abrir a nova semana o espectáculo era confrangedor para qualquer europeu atento: falta de valores, ou seja falta de liderança.
Porque disso mesmo se tratara: a Europa não tinha, atentamente, líderes à altura.
3.
E foi assim que Juncker e Barroso voaram para os EUA, para a cimeira com Bush. Como líderes fracos de uma União fraca, lá foram falar com o Presidente da super-potência. Que, honra seja feita, fez tudo para puxar por ele e pela União, apelando à sua unidade, realçando o seu papel, incentivando o seu progresso económico e social.
Sabendo-se, como se sabe, que, em Washington, há várias visões sobre a Europa, Bush quis dar a ideia de que perfilhava a linha da convivência estratégica de uma Europa unida e forte, convivência para o mundo e para os próprios EUA
E lá foi, naturalmente, pensando no apoio europeu no Afeganistão e no Iraque, nas relações com a Rússia e a Ucrânia e no enquadramento da Turquia.
Mas a verdade é que foi um pouco patético ouvir Juncker realçar a força da U.E., menos de 48 horas de ter falado numa Europa em profunda crise.
Não deu para acreditar.
4.
A semana terminou com Blair a apresentar, como é da tradição, a Presidência Britânica, no Parlamento Europeu uma semana antes de ela se iniciar.
Tentando dar optimismo e mostrar europeísmo, abriu para acordos orçamentais foi cuidadoso sobre o Tratado – sem o agredir gratuitamente -, e, no fundo, apelar à Europa continental para mudar de vida (leia-se sistemas e práticas) para salvar algum modelo social europeu.
Mostrou o que já se sabia: que é o mais forte dos líderes europeus.
Mas ficou por saber como reagirão esse Schröder à beira da derrota eleitoral, um Chirac gasto e sem noção do futuro, um Berlusconi perto, de eleições difíceis, e por aí em diante.
Provavelmente, tirando um acerto financeiro em Dezembro o que vai ser a U.E. no futuro próximo (e a médio prazo) vai depender da energia dos países do alargamento e da sua aliança com os menos enfraquecidos dos velhos 15, da substituição das lideranças gastas e sem ideal nem energia (em eleições, de 2005 a 2007) e da capacidade de os europeus perceberem que precisam de mais Europa e não de menos Europa.
Se querem resistir à China e à Índia ( e a outras concorrências asiáticas), é com mais Europa que o podem fazer, não é com menos.
Também aqui, a União faz a força. Não a desunião, o salve-se quem puder atabalhoado e emocional!
[Marcelo Rebelo de Sousa]
PS: Este site vai continuar, mesmo sem referendo. Continua. Que a Europa não se esgota numa, embora importante, campanha referendária.

