É Diário, Sábado 25 de Junho

1.
Uma semana depois – que é bom darmos tempo ao tempo, para ganhar distância e perspectiva –, vale a pena ver como vai a União Europeia.

2.
Nos dias seguintes à minha última observação sobre o adiamento do Tratado Constitucional, falhou o acordo sobre o orçamento comunitário e as recriminações recíprocas subiram de tom.
Para Chirac e Schröder a culpa era de Blair. Para Blair a culpa era de Chirac e Schröder.
Notáveis tinham sido os países do alargamento, que haviam feito tudo em homenagem ao sonho europeu: até tinham prescindido de parte dos seus financiamentos.
Em suma, ao abrir a nova semana o espectáculo era confrangedor para qualquer europeu atento: falta de valores, ou seja falta de liderança.
Porque disso mesmo se tratara: a Europa não tinha, atentamente, líderes à altura.

3.
E foi assim que Juncker e Barroso voaram para os EUA, para a cimeira com Bush. Como líderes fracos de uma União fraca, lá foram falar com o Presidente da super-potência. Que, honra seja feita, fez tudo para puxar por ele e pela União, apelando à sua unidade, realçando o seu papel, incentivando o seu progresso económico e social.
Sabendo-se, como se sabe, que, em Washington, há várias visões sobre a Europa, Bush quis dar a ideia de que perfilhava a linha da convivência estratégica de uma Europa unida e forte, convivência para o mundo e para os próprios EUA
E lá foi, naturalmente, pensando no apoio europeu no Afeganistão e no Iraque, nas relações com a Rússia e a Ucrânia e no enquadramento da Turquia.
Mas a verdade é que foi um pouco patético ouvir Juncker realçar a força da U.E., menos de 48 horas de ter falado numa Europa em profunda crise.
Não deu para acreditar.

4.
A semana terminou com Blair a apresentar, como é da tradição, a Presidência Britânica, no Parlamento Europeu uma semana antes de ela se iniciar.
Tentando dar optimismo e mostrar europeísmo, abriu para acordos orçamentais foi cuidadoso sobre o Tratado – sem o agredir gratuitamente -, e, no fundo, apelar à Europa continental para mudar de vida (leia-se sistemas e práticas) para salvar algum modelo social europeu.
Mostrou o que já se sabia: que é o mais forte dos líderes europeus.
Mas ficou por saber como reagirão esse Schröder à beira da derrota eleitoral, um Chirac gasto e sem noção do futuro, um Berlusconi perto, de eleições difíceis, e por aí em diante.
Provavelmente, tirando um acerto financeiro em Dezembro o que vai ser a U.E. no futuro próximo (e a médio prazo) vai depender da energia dos países do alargamento e da sua aliança com os menos enfraquecidos dos velhos 15, da substituição das lideranças gastas e sem ideal nem energia (em eleições, de 2005 a 2007) e da capacidade de os europeus perceberem que precisam de mais Europa e não de menos Europa.
Se querem resistir à China e à Índia ( e a outras concorrências asiáticas), é com mais Europa que o podem fazer, não é com menos.
Também aqui, a União faz a força. Não a desunião, o salve-se quem puder atabalhoado e emocional!

[Marcelo Rebelo de Sousa]

PS: Este site vai continuar, mesmo sem referendo. Continua. Que a Europa não se esgota numa, embora importante, campanha referendária.

É a sua Opinião - Sérgio Ribeiro

O texto que se segue é da exclusiva responsabilidade do seu autor

Congratulo-me com o início do blog-debate sobre o referendo em Portugal.

Como já foi referido por alguém, o facto de as várias consultas populares na Europa não coincidirem em termos de calendário parece-me uma oportunidade desperdiçada. Seria bastante interessante perceber as interacções argumentativas que se poderiam formar em torno da defesa ou não do Tratado Constitucional nos países que puderam ou que podem e/ou que quiseram ou que querem optar pela solução do referendo. Seria interessante, não por causa dos efeitos mediáticos ou sócio-emocionais que tais acontecimentos acabam por proporcionar – ainda que um efeito sócio-emocional de dimensão europeia representaria por si um valor para a história da integração – mas porque haveria fortes possibilidades de acontecer um movimento de ideias menos fragmentado ou mais unificado em torno de uma questão que diz respeito a todos. Enfim, assim não aconteceu, talvez por razões de estratégia ou por razões de impossibilidade material, o certo é que esta questão já era e o que fica é o reparo.

Digo que me congratulo com este debate por várias razões:

1- Primeiro porque não deixa de ser um sinal forte de que o referendo será realizado em Portugal. Independentemente do resultado dos três referendos que já se realizaram, penso que, uma vez que se assina um Tratado sujeito ao protocolo jurídico de uma ratificação e, ainda para mais, um Tratado com a importância que este acaba por ter – tanto de um ponto de vista positivo como de um ponto de vista negativo – parece-me uma substancial falta de seriedade interromper o processo só porque a) o momento não é o mais favorável ou b) porque o Tratado corre sérios riscos de já estar hipotecado ou ainda c) porque esta é uma boa forma de o anular de vez. No meu entender, não se pode quebrar um protocolo político-jurídico que foi acordado – não num contexto internacional mas num contexto comunitário – sob pena de se observar uma radicalização excessiva do livre arbítrio político face à segurança que representa a sua objectivação pelo jurídico. É verdade que a situação finalmente bastante periclitante do Tratado Constitucional dá que pensar. Mas o que está em causa neste caso não é somente o Tratado mas a execução de consequências jurídicas de decisões políticas o que, por definição, implica uma estabilidade incompatível com os termos das conveniências contextuais. A crítica é directamente dirigida a todos aqueles cujos argumentos contra a realização do referendo reflectem razões de naturezas diversas como as que apontei acima [a),b),c)], ou seja, tanto a alguns defensores do SIM como a alguns defensores do NÃO. Por outro lado, não levar a cabo o processo de ratificação popular porque dois países, entre os quais um dos denominados grandes, responderam negativamente no processo de consulta, só virá a reforçar a ideia de que finalmente são os grandes países os únicos patrões da Integração europeia. Ora para um Estado como Portugal tais oportunidades – de um ainda maior engrandecimento, mesmo que simbólico, do peso «político» dos já grandes – não devem ser dadas. Independentemente dos resultados, o processo referendário deve prosseguir porque, quanto mais não seja, significará um equilíbrio saudável dos processos que relevam da construção europeia.

2- Segundo porque, tendo eu seguido o debate sobre o Tratado Constitucional em França, penso que não corro muitos riscos se afirmar que os sinais daquilo que será o debate em Portugal – pelo menos na blogosfera – são bastante positivos e anunciam alguma serenidade que em França só se começou a verificar na última semana de campanha referendária. Espero que a honestidade intelectual de quem tiver a responsabilidade de intervir publicamente neste debate prevaleça. Enquanto cidadão português, espero também, da parte de quem vier a intervir, que sejam desenvolvidos todos os esforços no sentido de clarificar o melhor possível todos os argumentos que se pretendem invocar. Penso que não basta invocá-los.

3- Terceiro porque a serenidade que espero vir a verificar no debate português sobre o Tratado Constitucional terá forçosamente um valor pedagógico muito importante. Que os portugueses venham a votar a favor ou contra a ratificação do Tratado é um facto carregado de consequências. Mas que o façam com uma opinião própria que possam fundamentar é um sinal claro da qualidade pedagógica do debate que precedeu o acto referendário. No meu entender, se conseguirmos em Portugal imprimir a vontade de um debate honesto e esclarecedor, todos sairemos a ganhar, a começar pelos intervenientes. A pergunta que fica é a de saber até que ponto quem intervier está suficientemente preparado para esclarecer os seus porquês… E finalmente, de uma forma mais fundamental ainda, até que ponto a amálgama não é benéfica para uns e/ou para outros.

Dirijo este texto aos dois principais Blogs (O sítio do Não e o €sim) que parecem estar vocacionados para o debate sobre o referendo. No caso deste texto pretendo ser neutro.

Sérgio Ribeiro

É a sua Opinião - João Subtil

O texto que se segue é da exclusiva responsabilidade do seu autor


Viva, Sr. Professor:

Estou dividido entre a sensibilidade que pende para um Portugal autónomo, menos dependente de trapalhadas europeias que nos iludem e nao ajudam (tipo subsidios no ambito da PAC que nos prejudicam, maus acordos de pescas, directivas ambientais...) e o bom senso de achar que se nos encaixarmos numa grande europa beneficiamos do peso das suas relações exteriores e de uma eventual melhor articulação económica...

Estou a espera de ver expostas no vosso sitio as razoes do sim, de uma forma clara, sem textos massudos e sem palha para entreter ou para apelar a sentimentalismos. Sugiro uma apresentação em alíneas... e ja agora, podiam debruçar-se sobre as eventuais razoes do nao, ora desmontando-as, ora assumindo-as como limitações da constituição proposta.

Os melhores cumprimentos,

João Subtil

É a sua opinião – Calado Lopes

O texto que se segue é da exclusiva responsabilidade do seu autor

Um pequeno comentário apenas.

Para muitos, o adiar do Tratado seria uma boa ideia porque isso iria permitir um compasso de reflexão sobre o que se pretende da construção europeia. esta ideia teve um bom expoente na revista The Economist.
Quanto a mim, nada me parece mais errado.
Por duas razões.
Em primeiro lugar, e a crer que os partidários do não invocam a inoperacionalidade do modelo económico europeu (porque é excessivamente liberal, ou porque é excessivamente dirigista e intervencionista), a verdade é que as grandes linhas do modelo económico europeu foram desenhadas pelo Acto Único Europeu, e pelos Tratados de Maastricht e de Amesterdão. Nada disto pode agora ser modificado, e o Tratado Constitucional vem expor este modelo de uma forma bem mais clara, transparente, sistematizada e esclarecedora que a vinha sendo utilizada. As diatribes contra o euro, por outro lado, não têm e não podem ter qualquer consequência.
Em segundo lugar, porque aquilo que é verdadeira novidade no Tratado Constitucional, constitui aquilo em que precisamente os europeus, consistentemente em todos os Eurobarómetros, têm vindo a indicar como principais falhanços da construção europeia e onde mais necessário e urgente é a acção comunitária: a defesa e a segurança da Europa. É é aqui que se procuram dar alguns passos, muito tímidos de resto, neste Tratado.
Por isso o não é completamente insensato. Não pode modificar o que desejaria, e impede a mudança do que é desejável.

É diário, sexta-feira 17 de Junho

O Conselho de Bruxelas deliberou: o Tratado não morre mas ficam congelados os referendos e o prazo de ratificação é esticado 1 ano, até 2007.
José Sócrates deu logo indicações para Portugal: o referendo de Outubro fica para melhor data, o que quer dizer não antes de Junho de 2006, quem sabe se mesmo só no final desse ano ou em 2007.
Já se esperava tudo isto. Os governantes europeus têm medo dos referendos agora e não acreditam em si próprios.
Querem uma pausa, sem saberem o que fazer dela.
E, nós aqui, neste sítio, nascido por causa do referendo e para defender o Sim no referendo? Sem referendo à vista, importa repensar a lógica de campanha, que também esteve presente nesta iniciativa.
Por outro lado, há matéria europeia com interesse, para informar e esclarecer, mesmo sem referendo.
E há, depois, outros temas, conexos, a tratar.
Por isso, nos próximos dias, se verá como pode continuar este percurso, se só debruçado sobre a Europa, se mais amplo, ocupado em outras temáticas.
Para já fica o lamento e a oposição a esta fraqueza, este adiamento, esta falta de convicção dos governantes europeus.
De facto, eles são tudo menos líderes!

[Marcelo Rebelo de Sousa]

É a sua Opinião - Luís Figueiredo

O tecto que se segue é da exclusiva responsabilidade do seu autor

Fruta do tempo

As palavras são como as cerejas… Neste tempo de cerejas, mas também de decisões importantes, justifica-se talvez introduzir uma pequena alteração: as palavras e as dúvidas são como as cerejas, o mal é começar.
Sou um cidadão interessado e razoavelmente informado. Aproximando-se a data para a tomada de uma opção no referendo que se avizinha (se se realizar, claro), nada melhor do que estudar o tema, o que tenho feito através de jornais, na rádio, na televisão e na leitura do texto da Constituição, senão da sua versão integral, pelo menos da versão condensada apresentada no “site” da UE. E pensar.
Sem querer generalizar, direi que me sinto um tanto frustrado com a maior parte das sessões de esclarecimento a que tenho assistido. Os foruns radiofónicos servem mais para aferir o grau de desconhecimento da população do que para esclarecimento. As mesas redondas televisivas podem ser muito interessantes em termos de programa e sobretudo de “share”, mas redundam habitualmente numa tremenda confusão, com toda a gente a falar ao mesmo tempo, raramente se conseguindo ouvir uma argumentação sólida ou encadeada. Restam os artigos de opinião, quando o seu autor não se mostra mais interessado em demonstrar que tinha razão antes de tempo, do que em analisar o conteúdo do texto constitucional e as suas implicações. Quanto à Constituição... é uma seca para o comum dos mortais que não tem formação jurídica nem política. Há que toma-la como um remédio, esperando que não saiba muito mal e que faça bem. O mínimo que posso dizer é que devia ser distribuída com uns óculos para ler nas entrelinhas. De qualquer modo tenho sido recompensado pelo meu esforço e, se ainda não estou decidido, pelo menos já tenho bastantes dúvidas. Recuando na memória, recordo os velhos tempos da faculdade em que, por esta altura, começava a preparar-me para os exames, abandonando a pacatez da santa ignorância e iniciando o stress que se avolumava na exacta medida dos meus conhecimentos, para terminar no dia do exame com uma vontade tremenda de o não fazer. Actualmente o stress não é tão grande, mas as dúvidas são. Deve ser a idade, que é outra. Naquela altura era mais consciente.
Tenho dúvidas para todos os gostos, sobre as suas finalidades, sobre a sua necessidade, sobre a sua viabilidade e até sobre a sua ratificação. Na impossibilidade de as expressar todas, há que escolher. Começo pelo fim.

Começo assim por levantar uma questão que se presta a alguma confusão e que pode ser relevante: uma coisa é o Tratado e outra é a Constituição. Com o Tratado, os representantes dos 25 países deliberaram ser do interesse comum elaborar uma Constituição. Com esta pretende-se criar uma Lei Fundamental para toda a população do espaço europeu.
Desconheço se há, na EU, legislação específica para a elaboração da sua própria Constituição. Julgo que não há e portanto tentarei transpor para a UE aquilo que julgo passar-se em qualquer país democrático, tomando como exemplo o que se passou em Portugal após o 25 de Abril. Tratando-se da Lei Fundamental, e vivendo-se em democracia representativa, elegeu-se uma Assembleia Constituinte, expressamente com essa finalidade. O voto popular, conferindo aos seus representantes a tarefa de elaborar a Constituição e de a aprovar, tornou desnecessário referenda-la para que ficasse legitimada.
O que se passou a nível europeu? Não houve eleição de uma Assembleia Constituinte, mas antes a reunião de uma Convenção, formada por elementos nomeados ad hoc. Assim, não tendo havido previamente o mandato popular, a sua legitimidade só lhe poderá ser conferida por meio de aprovação em referendo. Esclareço que não estou a fazer afirmações, pois não sou jurista, mas tão somente a seguir um rumo de raciocínio baseado na minha interpretação do que li e ouvi. E aqui levantam-se-me algumas questões:

- Qual o significado da assinatura dos representantes dos 25 países? A meu ver confirmou o Tratado, mas não a Constituição. Prestou-se, no entanto a confusões.

- O Tratado, como qualquer tratado internacional, julgo eu, necessitará de ser ratificado pelos órgãos competentes dos vários países e que, no nosso caso, é a Assembleia da República. Noutros poderá ser o referendo ou o Parlamento.

- Quanto à Constituição, essa sim, necessita da legitimação do voto popular, já que não foi elaborada por uma Assembleia Constituinte.

É dentro deste raciocínio que entendo que a ratificação do Tratado se possa fazer individualmente, em datas definidas por cada país, por referendo ou por via parlamentar. Pelo contrário, para a aprovação da Constituição deverá ser necessário um referendo realizado simultaneamente em todos os estados, como mandam as boas regras democráticas. Este, eventualmente, servirá as duas finalidades: pelos seus resultados globais, aprovará, ou não, a Constituição. Pelos seus resultados parcelares, em cada país, ratificará, ou não, o Tratado.

É diário, quinta-feira 16 de Junho

Começa hoje o Conselho de Bruxelas.
À hora a que escrevo só se sabe que o Presidente do Conselho, o Primeiro-Ministro luxemburguês Juncker quer dar tudo a Blair e ao Reino Unido e puxar por alguns países beneficiários de fundos.
Franceses, alemães e sobretudo holandeses franzem o sobrolho.
Mas, o mais curioso é que o dinheiro, o orçamento, os fundos, são o grande tema em debate.
O resto, para além da sempre estimulante mercearia, passa para segundo plano.
Assim vão muitos governantes europeus. A maioria. Mercearia primeiro. Ideias – um dia, depois da pausa.

[Marcelo Rebelo de Sousa]

É a sua Opinião - Quico Ventor

O texto que se segue é da exclusiva responsabilidade do seu autor

Pois seja!
A minha propensão é para o SIM, até o meu Quico! Mas realmente, temos de convir que cá dentro e possivelmente lá fora, a documentação sobre o tratado é zero (0)! O Zé povo não tem alcance sobre essas coisas e perante o "buraco negro", absolutamente desconhecido terá propensões para o não! Será? Porque raio o Estado Português (com letra grande, pois claro) não está interessado em informar?
Estarei atento.

É díário, quarta-feira 15 de Junho

Durão Barroso já aderiu à pausa. Por pragmatismo, diz. Para impedir mais votos negativos ao Tratado Constitucional.
Tal como muitos outros, em menos de duas semanas mudou de opinião.
Em Portugal, Não, e adiamento do referendo passaram a ser a moda, o politicamente correcto.
Só admira, neste clima do adiamento e cepticismo, como a sondagem do Expresso ainda deu uma vantagem embora ligeira (cerca de 1%) ao Sim. Com a moda do Não, o resultado só abona o bom senso de muitos resistentes.

[Marcelo Rebelo de Sousa]

É a sua Opinião - Helena Correia

O texto que se segue é da exclusiva responsabilidade do seu autor

Prof. Marcelo Rebelo de Sousa,

Em primeiro lugar quero congratulá-lo e agradecer-lhe o seu espaço na Internet! Tenho estado atenta aos acontecimentos relacionados com a UE e a Constituíção, notando uma grande explosão de descontentamento por parte dos cidadãos, bem como algum desconforto (talvez até embaraço) por parte de alguns políticos, em relação ao que aconteceu em França e na Holanda. Em simultâneo com a facilidade de comunicarmos com as instituíções europeias, através do correio electrónico, por exemplo, alguns cidadãos mostram-se profundamente desiludidos por sentirem que "Bruxelas" não os ouve. O blog da Comissária Margot Wallstrom está cheio deste tipo de "queixas" e começo a ficar convencida que o voto na Constituíção se misturou com um voto de "sim" ou "não" ao desempenho da UE. Aínda esta manhã, um cidadão francês me dizia que o "não" em França surgiu de pessoas que até divergem de opinião!

Umas são completamente contra a existência da UE, mas outras que a defendem, simplesmente não estão de acordo com o tipo de Constituíção que lhes foi apresentada; muitas destas últimas (nas quais ele próprio se incluí) votaram "NÂO" por considerarem que se a Constituição não for aprovada, vamos ter uma UE muito mais democrática, mais baseada em questões sociais do que na Economia! A este respeito consideram que é um documento demasiado extenso que acaba por reunir os tratados anteriores, que não coloca os países em igualdade de circunstâcias e é tendencioso em matéria de ideologia política. Além disso, consideram que esta Constituíção espelha acima de tudo um acordo económico entre os países da Europa e não uma cooperação para a integração dos cidadãos destes países. No meu ponto de vista, o facto de 25 países terem chegado a um consenso sobre tantos aspectos, é impressionante! Tal como o Sr. Prof. penso que o documento não é o ideal e está longe de ser de fácil leitura! Neste momento, aínda tenho dúvidas sobre o meu voto, apesar da informação consultada, não tendo no entanto nenhuma sobre o projecto e os valores da UE. Tenho orgulho e assumo em pleno a minha origem portuguesa, mas considero-me europeia acima de tudo, por várias razões que não referirei agora. Neste momento, estou sobretudo apreensiva com o facto de várias pessoas me dizerem que, em Portugal, vão votar "Não" por considerarem que não estão suficientemente informadas sobre este assunto.

Quanto a mim, discordo veementemente de uma atitude passiva face à informação. O blog do Sr. Prof. já é um contributo nesse aspecto, bem como outros, para além de jornais, para além do facto da Constituição Europeia estar disponível para venda... e faz parte da nossa cidadania procurarmos também a informação. No entanto, pelo que tenho visto pelo nosso país e pelo que se passa lá fora, penso que as pessoas (e incluo-me a mim) têm a necessidade que alguém explique o PORQUÊ desta Constituíção. Porque é que foi elaborada desta forma. E sobretudo que respondam aos argumentos do "não" de forma concreta e recorrendo ao que o texto explicita! Sendo eu completamente pró-UE acho que a Comissão Europeia e até os nossos governos, autarquias.... não têm desenvolvido o acesso dos cidadãos à informação no que se refere a um debate claro, preciso e objectivo sobre o futuro da UE e as implicação da ratificação (ou não!) da Constituição! Desde o "chumbo" Francês e Holandês, a capacidade de resposta, daqueles que ocupam lugares de elevada responsabilidade, tem aparentado ser do género "àgua na fervura", apelando à pedagogia e fornecimento de informação na esperança que os partidários do "não", um dia destes, acordem a pensar de forma contrária!

Será que esperam realmente que, após uma pausa para "reflectir", as pessoas mudem de ideias? A ideia que passa para muitos europeus é que o "Não" não é uma resposta aceitável! E agora? Vão insistir em referendos até o "sim" vencer? Receio que esta paragem no processo de ratificação vá ser um feitiço contra o feiticeiro. Como se justifica em democracia, que uns adiem a expressão da sua opinião por causa do resultado de outros?! Como é que "Bruxelas" se dá ao luxo de deixar quase explicito que o "não" é incompreensível ou mesmo inaceitável e agora tem que se fazer qualquer coisa para se obter um sim? E se não é essa a intenção, qual é? A Constituição Europeia pode estar a servir de bode expiatório para muita coisa; e receio bem que as instituições europeias não têm estado à altura para defenderem a sua credibilidade. O meu receio é que as opiniões se polarizem e acabemos todos por arranjar argumentos fáceis, rápidos e errados para nos livrarmos da insatisfação!

É a sua Opinião - João Pedro Lucena

O texto que se segue é da exclusiva responsabilidade do seu autor


Caro Senhor Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa,

Começo por uma pergunta: o espirito da União Europeia ainda é o de
contribuir para uma sã convivência entre os povos e nações do Velho
Continente? Sinceramente e infelizmente penso que já ninguém pensa que essa era, e deverá continuar a ser, a meta. Não me parece que haja algum político ou mesmo cidadão de qualquer país europeu que tema o aparecimento de conflitos entre naçóes da Europa.O objectivo foi alcançado!
Entendo que a Comissão o Parlamento Europeu e os chefes dos governos
nacionais, orgãos cheios de políticos ávidos de mais poder e destaque,
apelem ao "Sim". É que dessa forma é-lhes entregue mais poder e, numa lógica Federal, as políticas económicas, de Defesa e das Relações Externas, ficam ainda mais centralizadas.A gestão central da União fica faclitada e assim, todos eles, brilharão muito mais. Que bom poder falar com Bush de igual para igual.Realmente facilitamos a vida a esses políticos.
Ora o meu ponto de vista como Cidadão Português é que quero que esse poder fique mais perto de mim, dos meus compatriotas e dos políticos que elegemos em Portugal.
Portugal sempre foi um País europeu. Dizer o contrário é negar a mais
gritante constactação científica nos domínios da História ou da Geografia e mesmo da Cultura. Dizer "Não" ao Tratado Constitucional é dizer que, apesar de fazermos parte duma aliança política, económica e monetária, pretendemos manter a nossa própria liberdade e autonomia (a que ainda podemos ter) em assuntos tão relevantes como as relações com o Brasil,com os PALOP´s, com Timor e mesmo com os Estados Unidos. Dizer "Não" ao Tratado Constitucional é afirmar a nossa "europeidade atlantista e universalista". Dizer "Não" ao tratado Cosntitucional é, ainda, defender o primado da nossa Constituição.
Percebo que a miragem de poder dada aos políticos, que circulam nos
corredores de Bruxelas, por uma Constituição Europeia seja hipnotizante e irresistivel. Mas o povo, esse, vive, sente e trabalha num outro "mundo".
Estamos em Paz e, se Deus quiser, entre os povos europeus, essa paz é para perdurar. Chegámos lá!